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A Laje Lucio Lenz
O
sonho constante e universal do caçador submarino é a
descoberta de um pesqueiro virgem, com profundidade acessível
ao mergulho livre. A emoção de encontrar, explorar e
caçar em local onde nenhum mergulhador ainda esteve, é
algo que põe em disparada o coração do mais empedernido
veterano. Como há muito todas as ilhas foram exaustivamente
exploradas, resta somente a esse incorrigível romântico
encontrar uma laje. Mas, ai! Lajes desconhecidas e rasas, são
mais raras que leite de rainhas. Mesmo antes do advento do sonar,
elas eram reveladas pelas ressacas, cuidadosamente trianguladas pelos
pescadores profissionais, que por sua vez eram seguidos pelos mergulhadores.
Se a profundidade era viável, faziam a limpeza. Depois de anos
desse jogo de gato e rato, novas lajes nas ilhas próximas,
pareciam não mais existir. Entretanto era um dia perfeito de
verão, no final da década de 70: mar "passado a
ferro", nenhuma aragem arrepiando a superfície espelhada,
água cristalina e quente, nem sinal de correnteza. Um dia que
acenava com grandes promessas... A bordo da minha lancha Barbarella,
uma legendária Xaréu 21, casco de madeira trincada,
motor Volvo 165 HP de rabeta e fabricada pela Carbrasmar, estavam
o Plininho que seria meu companheiro de mergulho no dia, e Brita Polborn,
uma loira e escultural alemãzinha que adorava o mar e fora
“emprestada” como barqueira pelo seu namorado Lynn Farmer,
fundador da Engesub e sócio do Plininho.
Sem pressa, curtindo o esplendoroso dia, parei por
dentro da
Ilha Comprida,
nas Cagarras, a uns cem metros do través
do paredão granítico que fica aproximadamente a dois
terços do seu comprimento, para vestirmos as roupas de neoprene.
O Plínio dando largas ao seu entusiasmo exclamou:
- Que água, que água! Está um
cristal!
- É mesmo, secundou Brita, contagiada pelo
entusiasmo. - Dá até para ver as pedras no fundo.
Aquilo fez soar o alarme. Pedras, a duzentos metros
por dentro da ilha Comprida? Logo alí? Um lugar em que desde
tempos imemoriais pararam milhares de barcos em busca de abrigo? Pedras
por dentro da ilha palco de centenas de campeonatos, desde os primórdios
da caça submarina? Não parecia ser possível que
ninguém as tivesse visto antes. O mais provável é
que a imaginação feminina tivesse criado as manchas.
Já ia diplomaticamente me manter calado e ignorar o aviso,
quando olhei de relance para a moça: seus belos olhos azul
cobalto pareciam estar focando alguma coisa. Seguindo deles a direção,
debrucei-me no bordo da lancha, e sim, lá estavam as manchas
características das pedras, destacando-se no fundo de areia
clara.
Calcei atabalhoadamente os "pés de pato",
ajustei de qualquer maneira a máscara e caí n'água.
Não houve decepção. Era de fato uma laje, e de
bom tamanho, talvez uns 80 metros de comprimento, cercada de pedras
roladas onde nadavam despreocupados badejetes. O "cabeço"
ficava a uns 10-11 metros e as tocas mais fundas a uns 14 metros,
cotas fáceis de atingir. Com o coração parecendo
que ia sair pela boca, voltei ao barco, fiz as "marcações"
-ridiculamente fáceis, dado a proximidade- me equipei e mergulhei.
O Plininho foi atrás dos mansos badejetes
das pedras roladas e eu saí a procura de tocas e garoupas.
Foi uma escolha feliz. Nesse lajeado virgem havia várias tocas
habitadas, e nesse primeiro dia, abati 4 garoupas e um belo badejo
areia que totalizaram 45 quilos, sendo que a garoupa maior ultrapassava
os 20 quilos.
Na volta, fiquei preocupado que o Plininho desse
com a língua nos dentes e espalhasse a descoberta, mas ele
foi trabalhar na Bahia, ainda na mesma semana. Assim, durante dois
anos consegui esconder a descoberta, orientando meu barqueiro - naquele
tempo o saudoso colega Lunardi- para caicar próximo ao paredão
da ilha para fazer crer que lá eu mergulhava. Os outros barcos
mesmo me vendo dentro d'água, simplesmente passavam sem prestar
maior atenção. Afinal, quem poderia imaginar uma laje
por dentro da Ilha Comprida?
A laje sempre foi uma excelente opção
nos dias de mar forte por ficar por dentro da ilha. Durante esses
dois anos de "exclusividade", nela encontrei mantas de alentados
badejetes, desgarrados olhetes e quase sempre garoupas de bom porte.
Quando se tornou conhecida, o peixe praticamente desapareceu e hoje,
somente em raríssimos dias se tem a oportunidade de ver uma
arisca garoupeta.
Em acordo tácito e não falado, como
já acontecera com o Arduíno, os demais mergulhadores
deram à laje o meu nome.
Por: Lucio Lenz - 13/12/2005
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